Saturday, February 13, 2016

Quem é o pai da crise de 1929 (Crash da bolsa de Nova Iorque)?

Documentário A grande crise de 1929, de Joanna Bartholomew:

É relativamente comum algumas pessoas desonestas afirmarem que toda a culpa pela crise de 1929 é da intervenção Estatal. Tal afirmação é um colossal disparate, coisa que na época não se ouvia porque os fatos provando o oposto eram evidentes e muito recentes. Uma ala da direita, tempos depois, buscou revisar a história e distorcer os fatos para que suas idéias não sejam vistas como a causadora da maior crise econômica até hoje. A tradição política em torno da liberdade foi uma constante na história dos EUA, assumindo diferentes significados. Primeiramente, no período colonial, a idéia de liberdade esteve ligada à religião. Progressivamente, tal concepção foi secularizada e logo se passou a conceber a liberdade conectada à obediência das leis. Os colonos, pouco a pouco, adotaram esta concepção de liberdade, que norteou a independência das 13 colônias, processo no qual a liberdade foi evocada como elemento ideológico. Com relação ao âmbito social norte americano, a liberdade se constituiu a partir da garantia do liberalismo político e econômico,  através de um Estado mínimo, pouco interventor e que dava liberdade para o mercado se auto-gerir, sendo esta clara herança do liberalismo clássico. Entretanto, no fim da década de 20, os EUA são afligidos com a Grande Depressão, que abalou as bases do liberalismo em todo mundo e diminuiu o crédito que o liberalismo tinha na época.

Em toda a sua história (especialmente antes de 1929), os EUA sempre foram receptivos aos ideais liberais e nunca se aproximaram dos conceitos socialistas. Isso é verificável em qualquer livro ou material de pesquisa histórica. Percebam que os trapaceiros nunca evidenciam isso, esse é o modus operanti de qualquer argumento desonesto, desde os Terra Planistas, passando pelos criacionistas até os negadores do aquecimento global. Todos descartam a ciência estabelecida, prometendo uma verdade que está somente neles e em alguns poucos lunáticos que os apóiam. Primeiro afirmam que os livros didáticos e, por subsequência, a academia de história é dominada pelo pensamento marxista, o que é uma desonestidade brutal, a academia de história é dominada pelo pensamento da Escola dos Analles; o trapaceiro precisa mentir e omitir para impor seu raso argumento.

Após à Primeira Guerra Mundial, os países europeus se tornam devedores dos EUA, isso fez com que a indústria de lá tivesse menos concorrentes fortes pelo mundo. A guerra trouxe muitos benefícios econômicos aos EUA. A produção de bens aumentou de maneira vertiginosa e a década de 20 foi marcada por um clima de euforia próprio do American Way of Life. Muitos americanos foram atraídos pelo rendimento a curto prazo, ações monetárias. Atribuir a crise de 29 a uma suposta intervenção estatal é uma das maiores idiotices que ainda se ouve por aí. O sistema capitalista busca sempre o lucro, e as metas são sempre maiores lucros; para que a meta seja alcançada, normalmente, a produção é sempre aumentada para o volume de vendas seja maior, o que geraria um aumento dos lucros. Acontece que toda empresa de um determinado segmento pensa assim, querem mais lucros e produzem mais; a questão é que em um mercado aquecido e competitivo, o resultado de tal ambição é a saturação do mercado, pois não há capacidade infinita de consumo, não importa o mercado (mesmo havendo exportação). Mais cedo ou mais tarde tal segmento entrará em crise porque produziram mais do que serão capazes de vender, o resultado disso não é um lucro maior, e sim um tremendo prejuízo. Durante a Primeira Guerra Mundial, a economia estadunidense estava em pleno desenvolvimento. As indústrias de lá produziam e exportavam em grandes quantidades, principalmente, para os países europeus. Acontece que após a guerra, o quadro não mudou, pois os países europeus estavam voltados para a reconstrução das indústrias e cidades, necessitando manter suas importações, principalmente dos EUA. Esse período era crucial para que a indústria dos EUA pensassem que a Europa poderia diminuir o seu volume de importação após alguns anos, mas a ambição impediu tal reflexão; então a situação começou a mudar mesmo lá no final da década de 1920. Reconstruídas, as nações européias diminuíram drasticamente a importação de produtos industrializados e agrícolas dos Estados Unidos, até para que suas dívidas não crescessem ainda mais.

Com a diminuição das exportações para a Europa, as indústrias norte-americanas começaram a aumentar os estoques de produtos, pois já não conseguiam mais vender como antes. Grande parte destas empresas possuíam ações na Bolsa de Valores de Nova York e milhões de norte-americanos tinham investimentos nestas ações. Os lunáticos que buscam distorcer a historia costumam blefar ao afirmar que o estimulo dos grandes bancos em prover crédito para que os cidadãos comuns investissem sem critério na bolsa foi o início de tudo para a crise. Não citam que durante a década de 20 os EUA estavam passando por um boom econômico e com uma tradicional filosofia de governo que deixava claro a não interferência no mercado, tanto é que muitos não dizem nada sobre o presidente Herbert Hoover, que não fez nada para amenizar os efeitos da depressão por acreditar que o mercado se auto-regularia. Enquanto isso, 2000 mil bancos decretaram falência, a industria norte-americana perdeu 22% do seu valor. Em outubro de 1929, percebendo a desvalorizando das ações de muitas empresas estadunidenses, houve uma correria de investidores que pretendiam vender suas ações. O efeito foi devastador, pois as ações se desvalorizaram fortemente em poucos dias. Pessoas muito ricas, passaram, da noite para o dia, para a classe pobre. O número de falências de empresas foi enorme e o desemprego atingiu quase 30% dos trabalhadores. A primeira prerrogativa de qualquer trapeceiro que buscar distorcer a história é descartar a ciência estabelecida e apontar que a verdade está nele e em seu reduzido grupo de "pensadores". Eles se esforçam de verdade em convencer mais e mais ingénuos por aí; infelizmente, muitos até lhes dão ouvidos e ignoram os fatos. A crise interna, também conhecida como “A Grande Depressão”, foi a maior de toda a história dos Estados Unidos. Como nesta época, diversos países do mundo mantinham relações comerciais com os EUA, a crise acabou se espalhando por quase todos os continentes. 

Se dá crédito (pedido pelos empresários), a culpa é do Estado, se não dá crédito, a culpa é do Estado. O crédito foi dado, e quem fez uso do crédito mesmo? Alguém foi obrigado a usar o crédito? A polícia pôs armas na cabeça das pessoas para que usassem os créditos? A especulação e uso do crédito foram privados! Não importa a saída encontrada, a ônus sempre será dado ao Estado, é assim que os desonestos definem a história. É preciso apenas entender que crise de 1929 foi de superprodução e que atingiu todos os países capitalistas, uma vez que a integração econômica mundial permitiu isso. A capacidade de consumo dos países que mantinham relações econômicas com os EUA não foi capaz de acompanhar o ritmo da produção. A crise não foi nenhuma surpresa, uma vez que toda a prosperidade dos anos 20 não poderia ser mantida, justamente por ser artificial. A superprodução industrial motivou a desequilíbrio econômico, mas foi a especulação o verdadeiro golpe de misericórdia que tornou tal crise a maior até hoje. O sistema especulativo, que com seus lucros gerados pelas empresas de base dos holdings – que eram poucas e que, praticamente, sustentavam a economia –, não investia em atividades produtivas, mas, sim, em mais especulação, era um dentre vários pontos de incoerência na economia estadunidense (sem falar na clássica desigual distribuição de renda). 

 Mais tarde, quando houve a quebra nos EUA, a Europa quebra junto, já que o primeiro era o maior credor mundial. Para sair do apuro, as medidas da maioria dos países europeus foram se voltar para reconstrução de seus mercados internos, lançando mão de medidas protecionistas. Isso inspirou a intervenção Estatal tardia nos EUA através do New Deal (já com Franklin Delano Roosevelt na presidência), que se voltou predominantemente para a restruturação do mercado interno.


* Fonte:
ALONSO, Juan José. Herbert C. Hoover y Franklin D. Roosevelt: Depresión y New Deal. In: Los Estados Unidos de América: Historia y Cultura. Salamanca: Almar, 2002.

BOSCH, Aurora. Historia de Estados Unidos (1776-1945). Barcelona: Crítica. 2010.

CROUZET, Maurice. A Grande Depressão. In: História Geral das Civilizações. VII – A Época Contemporânea. São Paulo, Difel, 1977, p.p. 128-130. Apud. MARQUES, Adhemar et al. História Contemporânea Através de Textos. 10 ed. São Paulo: Contexto, 2004.p.p.159-160.

FONER, Eric. La Historia de la libertad en EE.UU. Barcelona: Ediciones Península, 2010.

LIONEL, Richard. A República de Weimar. São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p.p. 112-114. (Coleção a Vida Cotidiana). Apud. MARQUES, Adhemar et al. História Contemporânea Através de Textos. 10 ed. São Paulo: Contexto, 2004.p.p. 147-149.

HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

KARNAL, Leandro et Al. História dos Estados Unidos. São Paulo: Contexto, 2008.

LIONEL, Richard. A República de Weimar. São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p.p. 112-114. (Coleção a Vida Cotidiana). Apud. MARQUES, Adhemar et al. História Contemporânea Através de Textos. 10 ed. São Paulo: Contexto, 2004.p.p. 147-149.

MARQUES, Adhemar et al. História Contemporânea Através de Textos. 10 ed. São Paulo: Contexto, 2004.

Friday, February 12, 2016

A meritocracia é uma ilusão e a mobilidade social é um mito


A meritocracia é uma ilusão alimentada por exceções tão raras que diante da realidade evidente, se tornam até desprezíveis. A tal meritocracia deveria se basear em algum mérito para que o seu conceito faça algum sentido. A questão é que o tal mérito é sempre indefinível e passa longe de questões morais, muito menos das questões éticas. O discurso em si apenas tenta eliminar qualquer empatia para validar a idéia de que a miséria alheia é uma conseqüência justa, o que pode, na cabeça de certas pessoas, eliminar um provável peso na consciência de quem faz parte de uma sociedade desigual. Durante o século XX milhões e milhões de pessoas nasceram na pobreza, trabalharam muito a vida inteira e morreram pobres. A ilusão da meritocracia, que supostamente promove a justiça para quem tem mais mérito, apenas costuma ser visível para os mais abastados. Associada a isso, vemos um outro mito, o da mobilidade social. A ilusão da meritocracia e o mito da mobilidade social caminham juntos e são freqüentemente citados, até simultaneamente, mas sempre estão agarrados aos raros casos específicos onde uma excessão ilustra tais mitos e ilusões, mas jamais valida propriamente tal discurso. 

Normalmente, pesquisas sobre mobilidade econômica intergeracional ignora o contexto geográfico da infância, incluindo a qualidade da vizinhança e o poder de compra dos habitantes de um determinado bairro. Supõe-se que a variação individual na mobilidade intergeracional é em parte atribuível às condições regionais e de bairro, mais notavelmente o acesso às escolas de alta qualidade. Percebe-se que a renda média do bairro tem quase metade do efeito sobre as futuras rendas do que a renda dos pais de um morador. Estima-se, nos EUA, que a renda familiar de toda a vida seja de R $ 635.000 dólares maior se as pessoas nascidas em um bairro pobre tivessem sido criadas em um bairro de classe média alta. Quando as rendas são ajustadas ao poder de compra regional, estes efeitos tornam-se ainda maiores.

Simplesmente nascer em um bairro pobre impossibilita qualquer chance de haver mobilidade social a uma pessoa, e isso se aplica por décadas. Uma das razões para isso, é que sob o ponto de vista econômico, poucas coisas importam tanto para o nosso destino como o bairro em que nascemos e crescemos, acredite se quiser. A relevância disso está na redução de possibilidades materiais de seus habitantes. "Nos Estados Unidos gostamos de pensar que qualquer pessoa pode ir para onde quiser com base apenas em seus talentos e habilidades. Mas isso é cada vez menos o que acontece. O talento e a habilidade se contraem quando as pessoas estão presas em ambientes segregados." afirmou Douglas Massey, pesquisador da Universidade de Princeton. O que, atualmente, podemos considerar como ambientes segregados? Os guetos das grandes cidade do mundo.

De acordo com um estudo publicado em 2014 pelos pesquisadores Douglas Massey, da Universidade de Princeton, e Jonathan Rothwell, do Instituto Brookings, o simples fato de se mudar de um bairro precário para um melhor, não é suficiente para mudanças significativas. A pesquisa aponta que o local específico da cidade onde uma pessoa passa os primeiros 16 anos de sua vida é determinante na renda que ela terá muitas décadas depois, mesmo que mude seu local de residência diversas vezes. Deixando de lado a relativização, o conteúdo do estudo mostra que a possibilidade de ascensão e mobilidade social é ínfima e desde muito cedo definida na vida de cada pessoa. A segregação social é evidente sob o capitalismo, e diante de tal estudo é impossível não haver o debate sobre equidade, pois uma discussão sobre propostas até polêmicas de vários países, incluindo alguns latino-americanos, de levar habitantes de bairros pobres para viver em regiões mais ricas das cidades, é mais racional do que se apegar ao mito da mobilidade social ou da meritocracia. À medida em que a distribuição de renda fica mais desigual, ocorre o mesmo com a distribuição dos bairros. A concentração da riqueza e da pobreza aumenta. Os bairros pobres se tornaram mais pobres e fica mais difícil escapar do status socioeconômico da pobreza.

Quem mora nos guetos do mundo sabe que as experiências vividas no local de nascimento também são uma herança da qual é difícil escapar, pois o bairro é o ponto crítico onde se bloqueiam as aspirações das pessoas para subir na vida. Toda cidade tem duas realidades bem distintas e a perspectiva de vida de uma pessoa que vive em uma determinada realidade é totalmente diferente de quem vive em outra. Isso não é difícil de se observar, já que os bairros pobres, em qualquer lugar do planeta, tendem a ter taxas mais altas de desordem social, crime e violência. As pesquisas mostram cada vez mais que a exposição a este tipo de violência não tem somente efeitos de curto prazo, mas também de longo prazo na saúde e na capacidade cognitiva de seus moradores. Tais aspectos são permanentes e não se apagarão das pessoas, mesmo quando crescerem. A vida nos bairros mais carentes implica frequentar escolas de má qualidade, ficar mais longe das oportunidades de trabalho e mais perto dos focos de violência de nossas cidades. Garantir aos jovens de classes sociais mais baixas a oportunidade de começar suas vidas em regiões mais ricas pode ter um grande impacto positivo em suas trajetórias de vida.

Acabar com a segregação social é um passo importante para que o simples fato de nascer em determinado bairro não se transforme em uma sentença. Após a Segunda Guerra, Londres construiu moradias subsidiadas em bairros ricos, o governo ajudou as pessoas a se mudar de regiões de muita pobreza para áreas de classe média e alta, onde poderiam ter fácil acesso às vantagens que as comunidades mais abastadas oferecem. Viu-se que findar a segregação por bairros, a mesma que faz com que a vida de cidadãos de diferentes classes econômicas acabem tomando direções opostas em suas vidas, é quebrar o ciclo social estabelecido.

Recentemente, a proposta do prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, de um programa piloto para levar habitantes pobres para viver em um conjunto de edifícios de um bairro rico causou polêmica na Colômbia. Perceba que as pessoas que defendem a ilusão da meritocracia e acreditam no mito da mobilidade social são exatamente as mesmas que se opõe veementemente aos projetos de mobilidade real. A Colômbia não foge a essa regra pois em Bogotá a proposta de Petro foi chamada por opositores de medida populista e classificada como uso pouco eficiente de recursos públicos escassos. Eles afirmam que estes recursos deveriam ser usados para melhorar as condições dos bairros pobres onde vive a maioria dos habitantes da capital colombiana. A ilusória meritocracia é sempre utilizada para criticar as medidas sociais usando a justificativa de que todos têm as mesmas oportunidades e que o mérito verdadeiro – o sucesso profissional, por exemplo – depende única e exclusivamente do esforço individual. Sabemos muito bem que a realidade não é tão simples quanto essa ilusão possa parecer.

Tuesday, December 15, 2015

O MITO DA ESCASSEZ

A falta de produtos no mercado não é necessariamente sempre responsabilidade de uma política econômica mas de uma limitação ou deficiência na distribuição, o que pode ter raízes em outras questões. Vamos então nos limitar aos exemplos cubanos e venezuelanos atuais, simplesmente para facilitar o entendimento dessa questão. Para uma compreensão ainda melhor, indicamos a leitura da excelente obra de John Reed "10 dias que abalaram o mundo", ainda no início desta obra (que descreve a Revolução Russa) há uma breve explicação da situação local na década de 10 e 20, em especial a atuação contra-revolucionária por parte de setores burgueses que viviam do limitado capitalismo russo de então. Mas o que a longínqua Rússia do início do século XX, descrita por Reed, tem a ver com a Cuba e a Venezuela do século XXI? Por incrível que pareça, os métodos aplicados pela burguesia venezuelana são muito antigos; na referida obra de Reed há um trecho que descreve o modus operandi contra-revolucionário, que basicamente se resumia a uma espécie de auto-sabotagem econômica, tida através de explosões e inundações de minas, incêndios criminosos em fábricas, descarte de produtos em excelente estado para consumo (para que faltassem no mercado e sugerisse um aumento de preço), etc. Isso ocorre nos dias de hoje na nossa vizinha Venezuela.

Mas onde entra Cuba nesse exemplo? Bom, a ilha do Caribe tem problemas de abastecimento porque é um país muito pequeno territorialmente, assim, precisa importar certos produtos para o seu consumo, mas o país sofre com um longo e duro embargo econômico por causa da revolução popular que o tornou socialista e desagradou aos EUA. É esse país que intimida outras nações a se relacionarem comercialmente com Cuba, para que assim o embargo econômico imposto se torne ainda mais impiedoso ao povo cubano. Antes dos anos 90 não havia escassez porque a URSS era a única que enfrentava esse embargo e negociava tranquilamente com Cuba.

Décadas depois os partidos de esquerda ganharam o poder na América Latina e na Europa, e estes resolveram burlar a imposição norte americana voltando a negociar com Cuba. A consequência disso é que hoje a escassez na ilha é relativamente pequena, apesar do bloqueio ainda causar problemas, não chega a ser uma grande tragédia. Dia após dia esse problema está diminuindo de alguma forma.
Os capitalistas, por sua vez, culpam o socialismo pela escassez na Venezuela. Ora, se Cuba é mais socialista que a Venezuela, e sofre um bloqueio há 50 anos, e a própria Venezuela tem muito mais recursos naturais que Cuba, (sem falar do petróleo), como é que ela está sofrendo de escassez crônica e Cuba não? Afinal não é isso o que a mídia não cansa de afirmar?
Como é possível isso? Se o socialismo causasse escassez, Cuba jamais poderia estar prosperando de forma superior à Venezuela (que não sofre embargo algum). Por mais que o mercado da ilha esteja sendo aberto, a Venezuela é muito mais aberta que Cuba.

A resposta está no fato de que em Cuba não há uma classe dominante que boicote o socialismo. Na Venezuela os grandes empresários, através de métodos similares aos descritos por John Reed, estão fazendo de tudo para desmoralizar o governo. Escondem os produtos em galpões clandestinos, desabastecem o mercado de propósito para culpar o socialismo. Foi assim também com Salvador Allende no Chile. A escassez é um mito (criado pelos empresários), no caso da Venezuela, os produtos existem e poderiam ser consumidos pela sociedade venezuelana, mas os setores burgueses do país querem promover a miséria e descontentamento popular para atingir o governo.

Em janeiro de 2015 mais de mil toneladas de alimentos da cesta básica foram apreendidos pelo governo venezuelano em um galpão da empresa de distribuição Herrera S.A., que não distribuía os produtos, como parte da guerra econômica declarada pelos grandes empresários contra o governo popular de Nicolás Maduro. No mesmo mês a Superintendência de Preços Justos, com apoio de denúncias dos cidadãos, apreendeu milhares de produtos de alimentos e de higiene pessoal em um armazém da empresa privada Herrera S.A. no estado de Zulia. Os produtos possivelmente seriam contrabandeados para a Colômbia, onde se paga mais pelos produtos contrabandeados "Made in Venezuela". Nove sucursais da Herrera S.A. estão sendo investigadas por retenção dos produtos vitais para o povo venezuelano. Foram encontradas toneladas de farinha de milho, arroz, fraldas, detergente e milhares de unidades de leite, sabonetes, amaciantes e barbeadores, entre outros.

Mas quem é a Herrera S.A. e o que a empresa faz? Bom, a Herrera S.A., que é um mero exemplo dentre vários, detém um forte controle na distribuição de produtos alimentícios, de higiene pessoal e enlatados no país. A empresa tem exclusividade na distribuição das marcas Kellog's, Nestlé, General Mills e Avelcasa em oito estados venezuelanos e também monopólio na venda dos produtos de higiene pessoal fabricados pela "Procter & Gamble" (sabão, detergente, fraldas e absorventes) e pela Pfizer (higiene bucal e cremes para o corpo). Em agosto de 2014, a Superintendência de Preços Justos multou a empresa com 5 mil unidades tributárias por não cumprir a Lei Orgânica de Preços Justos, aprovada em 2011 com o objetivo de regular e controlar os preços e evitar a especulação no país.

A burguesia venezuelana usa a mão de obra local para produzir o seus produtos, que serão quase que integralmente contrabandeados para a Colômbia e deixará sem opção de consumo os venezuelanos. A intenção, como já explicamos, é inescrupulosamente desabastecer a Venezuela (atingindo a população), mas ao mesmo tempo sem parar de produzir e lucrar, já que ilegalmente vendem o que produzem ao país vizinho. O governo venezuelano sabe disso e afirma que toneladas de mercadorias produzidas na Venezuela e fortemente subsidiadas (para o preço final ser mais baixo) são vendidas na Colômbia a preços muito mais altos.

A escassez de muitos alimentos básicos na área da fronteira oeste da Venezuela, isso mesmo, você leu certo: fronteira, levou a protestos contra o governo do presidente, Nicolás Maduro. Por outro lado, o contrabando na fronteira também é um problema para a Colômbia, que registra uma grande perda em impostos e queixas de concorrência desleal por parte de empresários locais. Mais de 42 milhões de litros de gasolina e 23 mil toneladas de alimentos foram apreendidos só em 2014.


O desabastecimento é um mito construído pelos setores capitalistas e reforçados pela mídia que são contra governos socialistas. Portanto, da próxima vez que citarem os papéis higiênicos supostamente em falta na Venezuela, lembre-se que isso é culpa do capitalismo local.

Sunday, October 11, 2015

Comunista de Rolex


É preciso deixar claro para as pessoas desavisadas que existe uma gritante diferença entre um mendigo e um socialista, por mais que certas pessoas, que não fazem uso do seu intelecto, pensem em se tratar da mesma coisa, ou até mesmo desejem que de fato fosse a mesma coisa, vale ressaltar que mendigos são (em sua maioria) vítimas do sistema capitalista, já os socialistas, na pior das hipóteses, lutam contra as falhas desse sistema injusto. Aliás, esse velho papo de “Ah, você é comunista? Então dê tudo o que é seu para os pobres!” tem muito mais a ver com o cristianismo do que com o socialismo, até porque a sugestão é na verdade atribuída a Jesus Cristo (Mateus 19:21) e não aos marxistas.

Bom, meio que já falamos um pouco sobre isso lá no post “O mito da relação Socialismo X Evolução Tecnológica”, mas não custa lembrar que foi a URSS o único país que em apenas duas décadas, saltou de um capitalismo precário para a conquista do espaço com os seus cosmonautas. Os satélites foram inventados pelos soviéticos, sem isso não haveria o serviço do Global Positioning System (GPS). Imagina se os amantes do capitalismo deixarem de usar os seus GPS por pura birra ideológica? Tudo o que se produz é feito através do trabalho e isso não depende de sistema algum, precisamos trabalhar para criarmos coisas e nenhum sistema funciona sem o trabalho. Os sistemas de dominação não criam as coisas, apenas se apropriam dos meios de produção. A sociedade de hoje não precisa do capitalismo para produzir iPhones ou relógios do tipo Rolex, assim como a sociedade do século 19 não precisava da escravidão para produzir café.

Pessoas de pouca inteligência acham que tudo que existe é fruto do capitalismo e nós devemos ser gratos. Não preciso nem me alongar mais com relação ao trabalho, pois o trabalho existe sob qualquer sistema e é justamente o trabalho que produz as coisas. Já procuramos nas obras de Karl Marx, por exemplo, alguma possível parte em que se afirma que os comunistas devem viver como nos tempos das cavernas. Ainda não achamos nada parecido, se é que existe. Na verdade o comunismo não priva homem algum do poder de se apropriar de produtos criados pela sociedade. Tudo o que ele faz é priva-lo do poder de subjulgar o trabalho de outros através de tal apropriação (citada no parágrafo anterior), isso fica evidente no Manifesto Comunista. Todo cidadão e cidadã deve fazer uso de tudo aquilo que julgar necessário, principalmente vindo honestamente através do suor do seu trabalho. Socialistas usam tudo, desde escadas a computadores, todas as ferramentas necessárias devem ser usadas. Aliás é essa a ideia do comunismo, que o acesso à bens materiais e educação seja para todos e não apenas para uma pequena parcela da população.

Comunistas não veem marcas ou glamur (coisa de fetichista), e sim objetos. Não faz sentido algum querer jogar basquete em uma partida de vôlei, portanto querer usar valores capitalistas para julgar o comunismo é absolutamente ilógico. São sistemas muito diferentes e ninguém vive isolado dentro de uma sociedade, assim se o país é capitalista, todas as dinâmicas sociais e econômicas serão baseadas no sistema capitalista, se o país for socialista, o mesmo se aplica. Quem ama marcas e “valores agregados” são os CONSUMISTAS e não os COMUNISTAS, para estes tudo se resume a ferramentas. Vejamos, por exemplo, que um vegetariano tem livre acesso a outros alimentos, e assim ele pode escolher o que comer dentro da sua dieta (ou até mesmo sair dela!). Já um comunista não tem outra opção dentro do sistema capitalista, ele não pode viver sob um “socialismo individual”, isso não existe. Ideias valem mais do que meras ferramentas de efêmero uso.

Monday, September 28, 2015

"O homem é o lobo do homem"


O homem é o lobo do homem, ou seria o homem é o lobo do homem ruivo? Não entendeu? Então leia o texto até o fim! Talvez ainda haja a ilusão de que a espécie humana, teoricamente considerada mais evoluída, capaz de raciocinar e estando no topo da cadeia alimentar, pudesse se relacionar bem com o seu meio; mas tudo isso não quer dizer absolutamente nada, pois à medida que o ser humano evolui, ele acaba por se desumanizar cada vez mais, e tomado por fúria torna-se o mais cruel predador da sua própria espécie. É possível que ainda nem tenhamos nos tocado mas já somos vítimas de nós mesmos. Vejamos: O individualismo é estimulado pelo capitalismo, que se baseia em crescentes lucros, e os lucros ocorrem quanto há cada vez mais consumo. Devemos entender o “consumismo” como a aquisição de bens totalmente desnecessários para o ser humano, bem como a criação de falsas necessidades. Além de não se satisfazer, o indivíduo acaba por gerar mais lixo e demandar mais exploração de recursos naturais não renováveis.

O consumismo inconsequente gera uma pressão permanente sobre o meio-ambiente e, aliado aos interesses de lucro constante por parte da lógica intrínseca ao sistema, fecha o quadro preocupante para a Humanidade. Toda essa exploração desenfreada, somada a produção colossal de lixo, mais a expansão industrial pelo mundo, só poderia resultar no Aquecimento Global. Achavam o quê? Que não pegaria nada? Séculos fazendo industrialização e tecnologia deitarem e rolarem sobre clima e recursos naturais para tudo terminar numa boa? Claro que não.

O clima tem sofrido alterações significativas no mundo atual, principalmente através da emissão dos chamados gases de efeito de estufa. Sendo que a principal causa destas emissões prende-se com a rápida intensificação da utilização dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e seus derivados, gás natural) desde o início da Revolução Industrial. O fato é que a sociedade de consumo gestada pelo capitalismo nos últimos dois séculos e a sua perspectiva globalizante alcançada desde o final dos anos 80 poderiam nos ajudar a entender o que está acontecendo. O maior inimigo do aquecimento global é o nosso atual modelo econômico.

Como se não bastasse ser o lobo do homem, nós também somos os lobos dos ursos! Involuntariamente estamos matando os ursos polares pois o aquecimento global interfere diretamente na sobrevivência dessa espécie. Esses ursos são encontrados apenas em cinco países: Estados Unidos, Canadá, Rússia, Noruega e Groenlândia. O aquecimento global contribui para o derretimento das geleiras e a diminuição do espaço para que eles se locomovam e, consequentemente, a oferta de comida também decai.

Os ursos polares desaparecerão, mas, por sua vez, surgirão milhões de refugiados ambientais que formaram já no início desse século um quadro calamitoso, porém a sociedade internacional apenas observa inerte a tudo isso. A situação já é grave em alguns lugares, como no caso de Tuvalu, um pequeno arquipélago do Pacífico, entre o Havaí e a Austrália. Por lá a população já sofre com inundações e problemas com a agricultura graças ao aumento do nível do mares. É bastante provável que o arquipélago, em poucas décadas, acabe sendo completamente inundado. Colombo, Carachi e Hanói são algumas das cidades asiáticas mais vulneráveis a inundações provocadas por chuvas intensas, associadas à subida das águas do mar. Na Europa, o maior símbolo é Veneza.

O pior é que as consequências não param por aí! A primeira vítima, de nossa espécie, do aquecimento global será a população ruiva; essas pessoas formam os dois porcento da população mundial que carrega um gene mutuante chamado MC1R que resulta em pêlos vermelhos e sardas. Cerca de 140 milhões de pessoas são ruivas, não à toa os ruivos são comumente associados aos celtico-germânicos. A primeira mutação do gene MC1R aconteceu a milhares de anos no norte da Europa, numa região extremamente fria e com luz solar insuficiente. Nossos ancestrais, ou parte deles, que habitavam esse território inóspito tinham pouca vitamina D, que só é produzida quando o corpo humano fica exposto ao sol. A mutação que originou os ruivos foi um artifício evolutivo que permitiu aos seus portadores sintetizar a vitamina D, sem exposição à luz solar. Hoje em dia, cerca de 35% dos escoceses e irlandeses possuem o gene MC1R, e quase 13% tem cabelos ruivos.

Acredite ou não, mas estudos recentes da Oxford Hair Foundation sugerem que os ruivos em breve serão extintos. Há uma razão muito convincente para que isso não seja uma piada. O planeta está esquentando em conseqüência do Aquecimento Global. Portanto, mesmo os escoceses estão recebendo muita luz do sol para produzir vitamina D. Esse é o motivo que o gene MC1R esteja se tornando desnecessário. Diferente dos refugiados ambientais de Tuvalu, que um dia poderão se mudar para a Nova Zelândia, os ruivos simplesmente não tem para onde correr.

Tuesday, September 1, 2015

O mito da relação Socialismo X Evolução Tecnológica




A maior incentivadora para o desenvolvimento tecnológico é uma coisa chamada necessidade. Infelizmente, ainda muito se fala sobre a falta de estimulo que poderia haver no socialismo para que haja a mínima competitividade e incentivo ao desenvolvimento. É uma pena acharem que praticamente só há uma forma de se estimular o desenvolvimento: Mercados de alta concorrência.

Uma forma natural de incentivo ao desenvolvimento é o Comportamento Orgânico Social. A sociedade possui necessidades e um instinto natural por eficiência procurando sempre, de algum modo, aperfeiçoar ou agilizar serviços que antes consumiam mais tempos (deste modo, foi inventada a roda, surgiram métodos para controlar o fogo, o desenvolvimento da agricultura, a tração e tantos outros progressos pré-capitalistas).

O ser humano, dotado da sua inteligência, procurou formas, durante toda a história da humanidade, de vencer os obstáculos impostos pela natureza. Desta forma, foi desenvolvendo e inventando instrumentos tecnológicos com o objetivo de superar dificuldades. Isso é absolutamente independente de qualquer organização sócio-econômica, pois trata-se puramente da necessidade de se achar soluções. Toda sociedade possui, diante das necessidades, criatividade e engenhosidade, então sempre acharemos alguma solução para o que precisarmos. Não dependemos do capital para sermos criativos ou engenhosos. Em muitos casos o próprio capitalismo torna-se uma ferramenta prejudicial ao desenvolvimento. Um exemplo disso está nas políticas de "atualizações programadas" ou na manutenção e preferência por tecnologias mais lucrativas ao invés de tecnologias sustentáveis.

Grande pensadores socialistas sempre se mostraram favoráveis à tecnologia. Karl Marx escreveu na "Crítica ao programa de Gotha" que era necessário que os trabalhadores desfrutassem de conforto material no socialismo. Marx e Engels eram entusiastas do progresso industrial, condenando os métodos pelo qual foi alcançado, Lenin era um entusiasta da tecnologia, e em sua obra política fez questão de enfatizar que o comunismo dependeria do poder soviético mais a eletrificação de todo o país (a eletricidade era, então, talvez a mais avançada forma de tecnologia humana em sua época), a era de Stalin permitiu ao homem soviético dominar a mesma força que gera o sol, a energia nuclear. Os primeiros computadores soviéticos criados no final dos anos 1940 não eram inferiores a seus análogos ocidentais. No começo dos anos 50, foi criada na URSS uma indústria moderna de computadores pessoais cujo nível não era inferior ao da indústria estadunidense.

Talvez não seja muito sabido mas a internet deve muito ao potencial soviético de transmissão de dados via-satélites, possivelmente sem os Russos, hoje não tivéssemos opções de internet a rádio. Para não nos alongarmos muito, aqui será citado somente o nome de um inventor:  Leonid Ivanovich Kupriyanovich. Sim, o russo Kupriyanovich era comunista e um engenheiro conhecido por seus inventos na área de comunicação. Ele, ainda na primeira metade da década de 1950, inventou um aparelho semelhante aos walkie-talkies, capaz de fazer ligações de até 1,5 km de distância. 

Em 1957 ele apresentou a mesma versão de seu walkie-talkie, mas com um alcance de 2 km e com o peso de 50g. Mas o engenheiro comunista não parou por aí, no mesmo ano ele apresentara o LK-1, um telefone celular que usava ondas de rádio, tinha o alcance de 20 a 30Km de distância e uma bateria que durava 20 a 30 horas. O dispositivo manual pesava cerca de 3kg e dependia de uma estação. Mas, segundo Kupriyanovich, a estação podia servir a vários clientes. Ele patenteou seu telefone celular em 1957 (Certificado № 115494, 1.11.1957). Em 1958, no Instituto de Investigação Científica de Voronej (VNIIS), Kupriyanovich iniciou a pesquisa por um sistema próprio de comunicação celular. Suas descobertas científicas eram constantemente publicadas na mais famosa revista sobre tecnologia editada na União Soviética, a Nauka i Jizn. Em 1958, Kupriyanovich fez uma versão ainda menor da sua invenção. O aparelho do engenheiro soviético não apenas permitia ao usuário fazer ligações, como também recebê-las de telefones residenciais e também de telefones de rua. 

Em 1961, ele desenvolveu um dispositivo ainda menor que o de 1958, que cabia na palma da mão, e tinha um alcance de mais de 30km. Kupriyanovich inventou o telefone celular apenas incentivado pela necessidade de comunicação à longas distancias, ele não queria ficar trilhardário e explorar os consumidores com o monopólio do serviço que o seu invento poderia prestar. Tanto é que acredita-se que o telefone celular foi inventado em 1973 nos EUA, porque a Motorolla tinha planos para explorar comercialmente o aparelho; que só foi posto no mercado em 1979 a um custo de US$ 3700,00 e fazendo ligações que custavam de 24 a 40 centavos o minuto. Enquanto os estadunidenses propagandeavam os serviços do aparelho que estavam vendendo, o invento de Kupriyanovich, lá em 1963, era basicamente usado por quem tinha real necessidade do serviço, como médicos, em hospitais, e por taxistas pela URSS. É por essas e outras que dizem que “a propaganda é a alma do negócio”.

O importante é perceber que o socialismo não limita a tecnologia. Até se citarmos os video games, veremos que não houve qualquer cingimento, pois foram também os soviéticos os responsáveis pelo jogo mais distribuído na história, sendo até hoje, um dos principais jogos referências do árcade - O lendário "Jogo Mental Soviético" Tetris. O comunismo jamais impediria a existência de smartphones ou mesmo de jogos de video games, e nem significaria que esses jogos fossem ultrapassados ou pouco desenvolvidos, isso só dependeria da necessidade da sociedade e a dedicação e curiosidade de algum realizador em trabalhar nisso.

A livre concorrência junto com a iniciativa privada, busca o lucro, então o que se deseja não é o bom funcionamento de algo para um melhor usufruto da população, mas sim retornos financeiros cada vez maiores. Isso permite que os concorrentes se vejam como inimigos comerciais e buscam dificultar o êxito alheio, pois isso significaria a sua derrota. Mas é justamente essa lógica, como previamente citada, que emperra o livre desenvolvimento tecnológico. Sem o capitalismo, nós poderíamos estar ainda mais evoluídos tecnologicamente.

Saturday, August 29, 2015

LOUCOS E LIBERAIS, ou seria LIBERAIS E LOUCOS?


Milton Friedman foi um economista liberal do século XX. Ele fundou Escola Monetarista de Chicago. Foi um dos principais defensores do liberalismo econômico e um dos idealizadores do neoliberalismo. Friedman tentou em uma palestra convencer a sua platéia de que certos países ocidentais não ficaram ricos devido a escravidão ou mesmo devido aos recursos que extraíram das suas colônias. Ele falhou miseravelmente.

Friedman mostra um notável cinismo ao falar da história. Os fatos simplesmente não concordam com o que ele sugeriu. Ele diz que o capitalismo é necessário para a liberdade, mas não o suficiente. Bom, de fato, não é suficiente porque o capitalismo simplesmente não envolve liberdade alguma. Sob o referido sistema, a propriedade privada já está abolida para nove décimos da população, ou seja, se trata de um privilégio puramente elitista. Para começo de história, o sistema precisa de propriedades privadas, permanente resquício do feudalismo, que por si só já é uma demonstração da falta de liberdade. Pagamos pedágios, taxas ou algo similar para simplesmente ter acesso a locais públicos, se não tens dinheiro, o teu direito de ir e vir está cerceado.

Para ele, a Inglaterra não tinha escravos. Sabemos que ele tinha noção do envolvimento da Inglaterra com o comércio de escravos africanos, Friedman não era tolo, só tentou se fingir. Mas a riqueza inglesa veio também através da exploração de suas colônias, que também usavam escravos, mão de obra gratuita.


Segundo Friedman, o Japão não teve escravos nos 100 anos desde a restauração Meiji. O Japão é o maior exemplo de colonialismo na Ásia, não vale a pena se prolongar nisso. Mas é bom lembrar que essa política japonesa foi uma reprodução daquilo que o próprio país foi vítima. A partir de 1850, as nações ocidentais passaram a desenvolver estratégias políticas que pressionavam a abertura política e econômica japonesa. Em 1854, sob o comando do almirante Perry, uma esquadra norte-americana impôs a abertura dos portos nipônicos ao mercado mundial. Por meio de sérias ameaças militares, os japoneses foram obrigados a assinar tratados comerciais com diferentes países. E aí, Friedman? Não vemos liberdade nisso.

Segundo ele, o colonialismo sempre custou mais para a metrópole do que retribuiu em benefícios econômicos. Mas o exemplo dado, que cita a Índia como colônia custosa para a Inglaterra, não foi feliz. A Índia, terra das especiarias, foi uma grande colônia para a Inglaterra e era economicamente vantajoso explorar o país, que na época abrangia também a região do atual Paquistão e Bangladesh. Por que acham que houve uma guerra pela independência da Índia? Se não fosse lucrativo, os ingleses jamais gastariam recursos enviando e mantendo tropas para impedir a independência indiana.

Para ele, o colonialismo ocidental foi muito bom, especialmente para as colônias, mas então ele cita que só havia colonialismo de fato na URSS; porém aí, ele firmou que o colonialismo em questão era muito ruim. Então ele deixa claro a sua parcialidade, resultante de uma desonestidade intelectual deplorável.

Vejamos, para o maluco, a URSS era uma nação imperialista impiedosa, ao mesmo tempo em que afirmou que os EUA nunca foi um país colonialista! A Doutrina Monroe não era soviética, muito menos a “Política do Big Stick” aplicada no continente americano. Não vou citar os episódios de invasão e anexação de territórios Mexicanos, ou como a política dos EUA influenciava os países latino americanos. Em 1776, os EUA, eram as 13 colônias e em 1865 já era o território atual. Isso graças ao maior genocídio da história, dos nativos americanos. Um processo análogo ao imperialismo, para fomentar crescimento econômico, visando alta aquisição de territórios, acesso a matérias primas e criação de mercado consumidor. Sem a expansão territorial norte americana, e o secular uso do trabalho escravo, eles não estariam em par com os europeus na primeira guerra mundial.

Friedman até tentou, mas falhou miseravelmente.